quarta-feira, abril 08, 2015

O Lado (mais) Negro da Crise

Hoje conheci uma história que me sensibilizou e descreveu perfeitamente os efeitos da crise económica numa família. 

Um homem que trabalhava numa empresa de construção tinha uma esposa e três filhos. Disse-me que, há cerca de dois anos os trabalhadores tinham decidido processar a empresa onde trabalhavam por causa de salários em atraso. Revelava que estava saturado devido a diversos adiamentos. Sabia que não podia desistir e que baixar os braços não era solução. Apeteceu-me abraçar aquele homem que se apresentava desgastado pelos dissabores do tempo. 
Contou-me que, pior do que isso, foi ter um enfarte quando percebeu que era o quinto mês de salário em atraso. Disse-me, sem que eu o questionasse, que só conseguia pensar no que dizer aos filhos quando estes lhe diziam que fazia falta algo para a escola. Que se tornou muito difícil trabalhar com o mesmo gosto que tinha antes. Estamos a falar de alguém que trabalhou cinco meses sem receber um único tostão. Estava há dezanove anos numa empresa e, de um dia para o outro, viu-se mergulhado nesta terrível situação. 
E disse-me que agora os sucessivos adiamentos do julgamento não ajudam a amenizar a frustração e medo do que o futuro trará à sua família. 

Muitas vezes referi que a crise económica agrava, em grande escala, o estado emocional das pessoas. Sabia que, em certos casos, agravava o estado de saúde. Hoje tive a confirmação de um dos piores efeitos. 

O cenário é negro, meus caros. A vida de muitas famílias não está, de todo, estável ou facilitada. Lembro-me que ao longo da conversa fui dizendo que as coisas estão a melhorar, que o importante era viver o momento presente, lutar pela família, aproveitar para estar com eles e tirar o máximo partido disso. E esperar que os tribunais trabalhem e se faça justiça. Que neste momento não vale a pena pensar demasiado nisso, que siga confiante e se abstrais da situação fazendo coisas que lhe dão gosto.

Na verdade, em mim, só sentia revolta e vergonha. Revolta por pessoas inocentes estarem a viver dramas desta intensidade devido a problemas que não causaram. E vergonha, muita vergonha, por viver num país em que o sistema judicial passa a vida a adiar julgamentos. É a vida das pessoas que está em jogo. Muitas vezes dependem dessas decisões judiciais para viver. O que vão, estas pessoas, fazer com a espera? Estamos a falar de vidas, de pessoas, de famílias, de gente! 

Perdoem-me mas hoje o meu optimismo está de folga! 


Por motivos óbvios houve partes da história que ocultei. Partes que dizem respeito à empresa. 

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